Tous les textes du philosophe Daniel Bensaïd.

Daniel Bensaïd Comunista herético

Por Michael Löwy

Daniel Bensaid (1946-2010) não é um desconhecido para os leitores brasileiros ; seus trabalhos foram frequentemente publicados pelo jornal En Tempo, orgão da corrente “Democracia Socialista” do Partido dos Trabalhadores, e varios de seus livros foram traduzidos ao português : Marx o Intempestivo (editora Xama), Os trotskismos (ed. Boitempo), etc. Sem exagerar, se pode caracteriza-lo como um dos principais representantes da renovaçâo do pensamento marxista na França hoje em dia. Ele foi, no sentido forte da palavra, um intelectual militante que não separa sua reflexâo do combate pela transformação revolucionaria da sociedade.

Daniel foi um dos fundadores, em 1966, da JCR, Juventude Comunista Revolucionaria, um grupo de jovens rebeldes, inpirado por Trotsky e Che Guevara. Em1968 ele organizou, junto com Daniel Cohn-Bendit e outros estudantes radicais, o Movimento 22 de Março, e logo se tornou um dos principais lideres da revolta de Maio de 68. Um ano depois, em 1969, êle vai fundar, junto com Alain e Hubert Krivine, Janette Habel, Catherine Samary e outros a LCR, Liga Comunista Revolucionaria, seçâo francêsa da Quarta Internacional. Ao contrario de tantas outras personalidades de 1968, êle permaneceu obstinadamente fiel aos sônhos e lutas de sua juventude. Pouco antes de sua morte, em 2009, êle participou, junto à Olivier Besancenot – com o qual êle escreveu um de seus ultimos livros Prendre Parti (Tomar Partido) na conferência de fundaçâo do NPA, o Nôvo Partido Anticapitalista. the New Anticapitalist Party.

Daniel Bensaïd nos deixous em janeiro de 2010. Foi uma grande perda, nâo so para nos, seus amigos e camaradas de luta, mas para o pensamento critico. Eu me lembro de nossas longas conversas, as vêzes discussôes, em tôrno de uma mesa, sobretudo na hora do café, no seu restaurante preferido, « Le Charbon ». Nem sempre estavamos de acôrdo, mas os laços de amizade eram intensos e eu admirava seu humor, sua irrêverencia, sua creatividade, e, acima de tudo, seu espirito de rêsistência, contra ventos e marés, à infâmia da ordem estabeleceida.

« Auguste Blanqui, comunista herético » é o titulo de um artigo que escrevemos juntos em 2006, publicado depois na revista Margem Esquerda. Este conceito se aplica perfeitamente à seu proprio pensamento, teimosamente fiel à causa dos oprimidos, mas alergico às ortodoxias.

Se os livros de Daniel se lêem com tanto prazer, é porque forma escritos com a pluma afiada de um verdadeiro escritor, que tinha o dom da formula impactante : uma formula que podia se assassina, ironica, furiosa ou poética, mas que sempre ia direto ao seu alvo. Este estilo literario, proprio ao autor e inimitavel, nâo era gratuito, mas ao serviço de uma idéia, de uma mensagem, de um chamado : nâo se dobrar, nâo se resignar, nâo se reconciliar com os vencêdores.

Bensaïd recusou da forma mais energica as tentativas de reaçâo neo-liberal de dissolver o comunismo no estalinismo. Mas êle nâo deixava de reconhecer a necessidade de um balance critico dos êrros que desarmaram os remvolucionarios de Outubro de 1917n, favorecendo a contra-revoluçâo Thermidoriana : a confusâo entre Partido e Estado, a cegueira face ao perigo burocratico. Precisamos tirar algumas liçôes historicas, ja sugeridas por Rosa Luxemburgo em 1918 : a importância da democracia socialista, do pluralismo, da autonomia dos movimentos sociais em relaçâo ao Estado.

A fidelidade à Marx nâo impedia Daniel Bensaïd de propor uma profunda renovaçâo do pensamento marxista, sobretudo em duas areas onde esta tradiçâo foi mais deficiente : o feminismo e a ecologia. As feministas tinham razâo de criticar Frederico Engels, quando ele considerava a opressâo domestica como uim arcaismo pré-capitalista destinado à desaparecer com o acesso das mulheres ao trabalho assalariado. A necessaria aliança entre a consciencia de gênero e a consciencia de classe nâo pode ter lugar sem um balanço critico, pelos marxistas, de sua teoria e de sua pratica.

O mesmo vale, segundo Bensaïd, para a questâo ambiental : aderindo ao compromisso fordista e à logica produtivista do capitalismo, o movimento operario tem sido, muitas vêzes, indiferente ou hostil à ecologia. Por outro lado, os Partidos Vêrdes se contentam de uma ecologia de Mercado. Na verdade, o anti-produtivismo de nossa época tem de ser também um anti-capitalismo (e vice-versa) : a luta ambiental é inseparavel da luta social. Confrontados com as destruiçôes catastroficas do meio-ambiente pela logica do valor de troca mercantil, precisamos combater por uma mudança do modêlo de produçâo e de consumo, de civilizaçâo e de vida ; para esta alternativa, Daniel Bensaïd inventou um nome : eco-comunismo.

Seu pensamento filosofico nâo era um exercicio acadêmico : de ponta à ponta êle esta atravessado pela corrente elétrica da indignaçâo - um sentimento de revolta que nâo pode ser dissolvido « nas aguas mornas da resignaçâo cosensual ». Ele so tinha desprêzo por aquêles que chamava « Homo resignatus », os intelectuais e politicos que se reconhecem de longe por sua passiva aceitaçâo da impiedosa ordem estabelecida. Para Daniel, « a indignaçâo é o comêço. Uma maneira de se levantar e começar à andar. Primeiro vem a indignaçâo, depois a revolta, em seguida ja veremos ».

Entre as contribuiçôes de Bensaïd à renovaçâo do marxismo, a mais importante, à meus olhors, foi sua ruptura radical com a ideologia positivista, determinista et fatalista do Progresso inevitavel, que tanto pesou sobre o marxismo « ortodoxo », sobretudo na França (mas vale também para o Brasil, onde durante muitos anos predominou, na esquerda, o que Leandro Konder chamou « a derrota da dialética »). Sua releitura de Marx, com a ajuda do revolucionario do século 19 Auguste Blanqui e do filosofo do século 20 Walter Benjamin, o levou a entender a historia como uma série de encruzilhadas e bifurcaçôes, um campo de possibilidades cujo desenvolvimento é imprevisivel. A luta de classes é central neste processo historico, mas seu resultado é incerto, e implica uma parte de contingência.

Em Le pari melancolique (A aposta melancolica, 1997), que é” talvez seu mais belo livro, Bensaïd se apropria de uma conceito de Blaise Pascal, filosofo francês do século 18, para argumentar que a açâo emancipatoria é um « trabalho para o incerto » implicando uma aposta no futuro. Referindose à interpretaçâo marxista de Pascal por Lucien Goldmann, êle define o combate socialista como « uma aposta racional no processo historico », uma aposta na qual se joga tôda a existecia do lutador, « correndo o risco de perder tudo ». Em Bensaïd, a revoluçâo deixa de ser considerada como o produto necessario das leis da historia, ou das contradiçôes economicas do capital, para se tornar uma hipotese estratégica, um horizonte ético, « sem o qual a vontade renuncia, o espirito de resistencia capitula, a fidelidade é quebrada, e a tradiçâo é perdida ». Por conseguinte, o revolucionario é um ser humano que duvida, um individuo que coloca uma energia absoluta ao serviço de certezas relativas. Em outras palavras, alguém que tenta, obstinadamente, levar em pratica a exigência colocada por Walter Benjamin em seu ultimo escrito, as Teses Sobre o conceito de historia (1940) : escovar a historia à contra-pêlo.

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O livro aqui publicado, O Espetaculo. Supremo Estagio do Fetichismo da Mercadoria é o ultimo escrito de Daniel Bensaïd, Se trata de uma obra inacabada, mas de uma extraordinaria riqueza, Como o observa René Schèrer no prefacio à ediçâo francêsa, sua escrita é interrogativa, apressada, ardente, como que movida pela urgencia, na inquietude de uma morte tragicamente proxima.

Se poderia dizer que o fio condutor é um esbôço de « genealogia do desespêro », uma analise critica dos pensadores que parecem considerar - mesmo que seja para deplora-lo - que a dominaçâo do capital nâo tem limite. Enquanto que György Lukacs acreditava - como o mostra ainda Dialética e Espontaneidade (1925), sua resposta aos criticos « ortodoxos » de Historia e Consciencia de Classe (1923) – na atualidade da revoluçâo, e no papel decisivo do fator subjetivo, varios de seus discipulos parecem aderir à uma visâo muito mais sombria, onde a alienaçâo e a dominaçâo absorvem tôdas as alternativas historicas. E’ o caso, pelo menos em parte, de Herbert Marcuse, que lamenta o declinio da « Grande Recusa » ao mundo dos negocios, o mundo baseado no calculo e no lucro - uma recusa inspirada pelo elemento romantico da cultura, pelo « espaço romantico da imaginaçâo ». Eu sei que Bensaïd desconfiava do romantismo - era um de nossos temas de discussâo - mas êle parece aceitar aqui, sem muitas reservas, o argumento do autor do Homem Unidimensional (1964) sobre o potencial subversivo da cultura romantica. Em tôdo caso, para Marcuse, apesar de tudo, escreve Bensaïd, « a porta estreita por onde pode ainda fazer irrupçâo um possivel intempestivo fica entreaberta » - uma bela imagem que entretanto parece mais bem inspirada por Walter Benjamin do que por Herbert Marcuse.

Mais pessimista ainda do que Marcuse é Guy Debord, escritor, filosofo e cineasta, fundador do Situacionismo e autor da Sociedade do Espetaculo (1967), uma obra importante de critica anticapitalista que vai inspirar o titulo do livro de Bensaïd. Os escritos de Debord estâo carregados de uma sombria melancolia : « damos voltas sem fim na noite, devorados pelo fôgo » é o titulo de um de seus mais belos filmes. Convencido de que « o conjunto do projeto revolucionario » foi derrotado ja nos anos 1930, Debord denuncia a sociedade do espetaculo, que na sua versâo suprema, o espetaculo integrado, elimina sistematicamente a historia e destroi qualquer projeto critico. O grande mérito de Debord, segundo Bensaïd, foi de perceber que a tentaçâo do determinismo cientifico é a brecha no pensamento de Marx pela qual penetrou a « ideologizaçâo do marxismo ».

Esta visâo infernal da eternidade mercantil capitalista é levada ao extrêmo por Baudrillard, Agamben, Surya, Holloway. Bensaïd opôe à esta « radicalidade sem politica » o pensamento estratgégico, que busca uma saida nas praticas, na crise, no partido. Este é o titulo de um ultimo capitulo que êle nâo teve tempo de escrever…

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